Criolos no Estrangeiro: Futsal Portugal - Talentos no Feminino com... Nady Brito

Rubrica mensal do zerozero

Nady Brito tem 27 anos e nasceu na Ilha do Sal, em Cabo Verde.

Mudou-se para Portugal com o intuito de estudar, mas a paixão pelo futsal intrometeu-se e deu início a uma história de constante evolução, que conheceu esta temporada o ponto mais alto.

Nady Brito, pivot do GD Chaves, é a melhor marcadora da fase de manutenção do campeonato nacional, tem mais golos do que jogos, e é a principal arma das Valentes Transmontanas.

Uma ligação ao desporto quase desde o berço

O desporto corre no sangue da família e por isso esteve sempre presente na infância de Nady. Com um pai futebolista e uma mãe andebolista, naturalmente despertou-se o interesse da mais pequena. «Era uma coisa muito interessante para mim. Via um pouco dos jogos e pensava quando é que ia jogar também», conta uma bem-disposta Nady.

O primeiro contacto com a bola surgiu no ponto de encontro das crianças, onde muitas histórias de sucesso começam: a escola. «Quando andava na primária, comecei a jogar por diversão, até que na minha ilha recrutaram um grupo de meninas para criar uma equipa e competir. E assim foi crescendo o meu gosto pelo futsal», recorda.

Nady Brito trabalha e joga futsal em Chaves, mas a história da cabo-verdiana em Portugal começou noutra cidade de Trás-os-Montes: Bragança. Mas o que leva alguém a percorrer os 3185 quilómetros entre a Ilha do Sal e a cidade mais a norte de Trás-os-Montes? Os estudos, que hoje em dia se traduzem num Mestrado em Gestão de Empresas no Instituto Politécnico de Bragança (IPB) e que está… parado.

«Consegui levar os estudos em diante, mas ainda falta terminar o mestrado. Agora que vim para Chaves, parei, ainda tenho de fazer a tese. Tive que parar um bocadinho e dedicar-me um pouco ao que gosto mais, só que, pronto, o futsal feminino ainda não dá para viver dele. Uma pessoa tem que parar um bocadinho, correr atrás dos sonhos e depois, quando tudo acabar, ter uma base para seguir em frente», diz-nos. Os estudos trouxeram-na a Portugal, mas o “bichinho” do futsal fez o resto e não demorou muito tempo até que começasse a competir. «Quando cá cheguei, com o objetivo de estudar, não era para jogar futsal. Procurei uma equipa, queria jogar, queria fazer qualquer coisa, não queria estar parada», recorda. A procura levou-a até aos Pioneiros de Bragança, que representou entre 2013/14 e 2018/19.

Do distrital ao nacional, da universal a pivot

Em Bragança, existe a particularidade de Nady Brito nunca ter disputado o campeonato nacional de futsal feminino. A competição para a equipa dos Pioneiros dividia-se entre provas distritais e a Taça Nacional. Apesar da ausência de um campeonato nacional, as memórias que ficam desses tempos são só boas.

«Para mim, os anos que tive nos Pioneiros foram fantásticos a nível pessoal, individual e mesmo de equipa. Tínhamos uma boa equipa também. Éramos um grupo unido. O que guardo mais são as amizades que fiz ali e toda a experiência, claro. Quando vim de Cabo Verde tive de mudar muito a minha forma de jogar e fui aprendendo muito, mas o que fica mesmo, de tudo, são as amizades», diz. “A felicidade está a uma lágrima de distância” para a Fada Madrinha, mas no caso de Nady Brito a felicidade encontrou-se na soma dos 3185 quilómetros entre a Ilha do Sal e Bragança com os cerca de 109 quilómetros que ligam Bragança a Chaves. Após seis anos nos Pioneiros, a até então universal rumou ao GD Chaves, onde conheceu novas realidades: um campeonato nacional… e a posição de pivot.

Vamos por partes: quando chegou a Portugal, Nady Brito alinhava preferencialmente como fixo, mas era o que se chama de universal. «Eu antes jogava a fixo, mas eu saía e fazia a minha jogada de trás, saía de trás para a frente, a fintar e a passar por todas as posições», relembra. Contudo, jogar em provas distritais e no campeonato nacional não é bem a mesma coisa e o que funcionava num lado deixou de funcionar no outro. Nady teve de se adaptar e a treinadora Rute Carvalho iniciou um processo de reconstrução da cabo-verdiana enquanto atleta. «Quando vim para Chaves, era para assumir a posição de fixo, mas a minha treinadora achou melhor colocar-me a pivot para aproveitar a minha altura, a minha estrutura [física]», explica. Uma «experiência nova» numa posição que é cada vez vista com melhores olhos pela jogadora de 27 anos. «Antes não gostava de jogar a pivot. Mas aqui é diferente, na primeira é totalmente diferente da distrital. Em Bragança, o nível de competição é muito baixo e então, se fores uma jogadora um pouco acima da média, consegues fazer muita coisa boa, consegues sair de trás para a frente. Aqui é diferente, já não conseguia jogar da forma como jogava antes. Por isso, a treinadora achou por bem explorar-me um bocadinho como pivot e é um lugar que agora me agrada», diz.

Uma nova posição e todo um outro nível competitivo. O “salto” foi complicado? Se foi! De tal maneira que Nady até colocou a hipótese de parar: «Senti muitas dificuldades, custou. Estive ali quase meia época parada, paradinha no sentido de não conseguir entender as coisas. Foi muito difícil para mim. Foi uma mudança muito brusca. E então eu já pensava em desistir, pensava que aqui não era para mim», recorda. Do outro lado da linha telefónica está uma voz sempre bem-disposta e que nos confessa que «até ainda é um pouco complicado, porque há equipas muito boas». O pensamento de desistir, esse foi-se embora rapidamente. «Vi na cabeça que se estou aqui, tenho de lutar até ao fim. Tenho de tentar pelo menos aprender alguma coisa aqui, que era o meu objetivo. E não desisti, fui trabalhando e trabalhando, até que consegui estar ao nível de estar numa competição nacional, de pensar de forma diferente e de fazer o meu jogo», atira.

Matosinhos: o «clique»

A primeira temporada em Chaves não foi fácil em nenhum sentido. Em 21 partidas, Nady Brito fez apenas cinco golos e a equipa parecia condenada à despromoção até que a pandemia de Covid-19 veio interromper os campeonatos. Um ano depois, o GD Chaves apresenta outra cara, caminha para uma manutenção tranquila e a pivot fez as redes abanar por 22 ocasiões em 19 partidas. O segredo para a mudança, segundo a própria, está numa das poucas coisas positivas de 2019/20: o apuramento para a final four da Taça de Portugal, que se jogou já durante 2020/21, em Matosinhos.

«Na final four correu bem. Sinceramente, não estávamos à espera de passar à final e muita gente também não achava. Mas não tínhamos nada a perder, tínhamos que ir à luta. Foi um clique, uma motivação que estávamos a precisar», conta. E a partir daí tudo mudou: «Tínhamos objetivos diferentes, tínhamos mais confiança na equipa, mais confiança umas nas outras. Basicamente, a motivação que precisávamos estava na final four». O GD Chaves possui o plantel mais curto de todo o campeonato. Nas fileiras do clube transmontano estão 11 jogadoras, sendo que três são guarda-redes. Também isto traz dificuldades acrescidas, mas que têm sido contrariadas pela equipa flaviense. «Tem sido uma dificuldade. Exige um pouco mais [fisicamente]. O futsal, apesar de ser uma modalidade em que tens as substituições que quiseres, tens que fazer as substituições de acordo com a forma de jogar de cada jogadora. E tens que fazer de forma inteligente. Tens um plantel curto, não tens muitas opções, não tens muitas escolhas», conta a pivot.

Num plantel curto e que «se tiver uma jogadora lesionada fica ainda mais curto», não há margem para erros. «Temos de estar todas a mil, não há margem para lesões nem para faltar ao treino nem nada disso. Temos de estar concentradas sempre e sempre bem preparadas, sempre concentradas no banco para entrar e fazer o melhor que nós conseguimos para estar à altura do que a equipa pedir no momento», afirma. A pergunta é inevitável: é esta a melhor temporada da carreira de Nady Brito? Os números dizem que sim e ela também não recusa a ideia. «Eu acho que sim. Surpreendi-me comigo mesma, não estava nada à espera. Em comparação ao ano anterior, se me perguntassem se eu este ano ia estar a marcar tantos golos, eu diria que não». Para o sucesso não há receita milagrosa, apenas estar «no lugar certo, à hora certa». E na hora da glória individual, há sempre espaço para a força do coletivo: «Os golos que eu tenho é graças à minha equipa, que trabalha em prol de todas e não é cada uma a olhar pelo individual».

Seleção Nacional: um sonho que pode ser real

A conversa ainda não vai assim tão longa e chega a hora de falar sobre as seleções. Em primeiro lugar, e para desenganar os que possam pensar que um jornalista sabe tudo, fomos tirar dúvidas com Nady Brito: Cabo Verde tem ou não uma seleção de futsal feminino? «De futsal acho que não. De futebol sim, mas de futsal acho que não», responde de pronto.

Sendo assim, significa que Nady nunca poderá representar uma seleção nacional? Não propriamente. A jogadora do GD Chaves está nesta altura prestes a obter a dupla nacionalidade, um processo que «atrasou um bocado, por causa desta confusão do SEF e do Covid», mas que está perto de ter um desfecho. «Agora vou meter os meus documentos para obter dupla nacionalidade, sim», conta a jovem.

A nacionalidade portuguesa permite que Nady Brito, caso os responsáveis assim o entendam, possa alinhar por Portugal. Não sabendo se essa é uma vontade de quem manda, sabemos, ainda assim, que há uma jogadora entusiasmada só com a ideia. «Para mim era um sonho jogar na seleção nacional. Gostava muito, mas acho que ainda tenho de trabalhar mais um pouco para estar ao nível de representar Portugal», diz. Todo o atleta tem os seus sonhos, uns mais que outros e uns com sonhos maiores que outros. A pivot cabo-verdiana diz que sonhos em concreto não tem, mas encara um dia de cada vez: «Este ano só quero mesmo garantir a manutenção no Chaves», confessa. Para o futuro, não há um patamar estabelecido em concreto, apenas o desejo de «chegar o mais longe possível no futsal, o que é muito complicado, ainda por cima no feminino». Estamos quase a chegar ao fim, mas ainda há tempo para falar de outra coisa que costuma andar de mãos dadas com os atletas: as referências. E nota-se a felicidade na voz de Nady quando se fala num nome: Ricardinho. O astro português não está, porém, sozinho na lista. «Também gosto muito da forma de jogar da Janice, que joga no Benfica. Para mim, são os meus ídolos», revela.

Agora é que é mesmo o fim e para terminar, convidamos Nady Brito a descrever-nos um dia na sua vida e como concilia os dois mundos. «Eu trabalho numa padaria e pastelaria aqui em Chaves. Nos dias em que tenho treino, os treinos são às 20 horas. Eu aqui ou estou a trabalhar de manhã ou estou a trabalhar a partir das 14 horas até às 20, mas dá sempre tempo de ir para o treino, termino sempre antes de ir. Se eu trabalhar de manhã, entro às 6h30 e saio às 14, dá para descansar e ir para o treino. Basicamente a minha vida é essa, ou trabalho de manhã ou de tarde e dá para conciliar com os treinos. Em relação aos jogos, tenho sempre folga no dia dos jogos», conta. E porque vive «a dois minutinhos do trabalho», um turno da manhã implica que Nady acorde “apenas”… às 04h45. Uma gestão de duas vidas que vai sendo feita com cautela, esforço e muita vontade: «Pois é [preciso gerir muito bem], para conseguir estar em boa forma e dar o que a equipa precisa na hora em que precisa». A quatro jornadas do fecho do campeonato, o GD Chaves pode garantir matematicamente a manutenção já na próxima jornada, na visita ao At. Povoense. A jogar o mais perto possível da baliza adversária estará a suspeita do costume, responsável por 22 dos 46 golos flavienses (47,8%) na presente temporada e que sonha em representar Portugal, país que escolheu como seu e que lhe pode dar a oportunidade de partilhar o palco com a ídolo Janice.

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