«Neste momento, estou a sentir-me emocionado. Não sabia quando podia voltar a jogar aqui, na Europa. Felizmente, correu tudo bem. Estou a fazer o que mais gosto, perto da família. Nem sei explicar, estou muito emocionado. É gratificante para mim.»


As palavras ilustram o estado de espírito de Péricles Santos Pereira. Pecks. Foi assim que ficou conhecido no futebol português, ao serviço do Gil Vicente, de 2011 a 2016.

Os últimos dois anos e meio foram um calvário humano e desportivo para o cabo-verdiano, retido no país de origem por problemas burocráticos que só tiveram avanços concretos ao fim desse período. «Uma página que já ficou para trás», atira. E da qual pouco quer falar, por ora.

Hoje, Pecks está de volta a Portugal e a Barcelos, perto da mulher, portuguesa. De novo no futebol luso. Agradece o Pedras Rubras, clube da série B do Campeonato de Portugal. Desde janeiro, é a nova casa da carreira do defesa central, que voltou ao país a 13 de dezembro último. Um mês depois, estreou-se e pegou de estaca: seis jogos, 540 minutos.

«O Pedras Rubras surgiu quando eu já estava em Portugal. Um amigo convidou-me. Disse-me que algumas pessoas do Pedras Rubras gostavam de falar comigo. Agora, estou a viver uma boa etapa da minha vida. Vou encarar de forma séria e dar o meu melhor pelo Pedras Rubras. As pessoas receberam-me bem, têm apoiado muito», garante.

De alma renovada, Pecks frisa ainda ter metas altas. «O meu objetivo é chegar ao nível mais alto possível. Gostava de ficar em Portugal. Era bom para mim voltar à seleção, estou a trabalhar com esse objetivo», garante o defesa, internacional por três ocasiões.

Para isso, conta com a ajuda da família portuguesa. Dia a dia, entre Barcelos e Pedras Rubras. «É a minha esposa que me leva aos treinos e o pai dela também, porque ela trabalha e nem sempre consegue levar-me», conta.

Forma trabalhada do futsal aos treinos na praia

A última internacionalização pela seleção, em junho de 2016, ante São Tomé e Príncipe, foi o início de uma etapa menos positiva. Após o jogo, o regresso a Cabo Verde foi maior do que o esperado.

«Fiquei lá porque tive que resolver uns problemas. Graças a Deus, consegui. Mas agora gostava de conter-me sobre isso, tenho algumas coisas por resolver», confessa.

Em dois anos no país natal, Pecks mostrou, porém, ser uma força da natureza… no meio dela. Sem jogar oficialmente, viu cessar um ano de contrato que restava com o Gil Vicente e manteve a forma na terra natal, a Ilha de São Vicente. Aí, treinou com o Sport Clube Ribeira Bote e também com conterrâneos de vida. «Jogava futsal com amigos e ia treinar à praia de manhã, com dois amigos», relata.

Mais tarde, em 2018, rumou à cidade da Praia e iniciou a época no GDR Celtic, clube local, pondo fim a pouco mais de um ano sem competição. «Recebi abordagens, com a do Celtic simpatizei na hora, foram pessoas que ajudaram muito. Encontrei um grupo fantástico, pessoas que tenho comigo», ilustra. Contribuiu com alguns jogos e um golo em cerca de três meses.

«Foi uma paragem longa, mas estive sempre a treinar. Foi um sacrifício grande e agora estou muito feliz. A minha família em Cabo Verde ajudou-me muito, a minha mãe, as minhas irmãs e, principalmente, a minha mulher, os pais dela e a família toda de Portugal», sublinha, com voz notoriamente comovida, em conversa com o Maisfutebol.

Memórias do Gil Vicente, o Man. City pelo meio e o futuro

Pecks conheceu Portugal em 2011, proveniente do Batuque, para uma época nos juniores do Gil Vicente, antes da promoção à equipa principal. Das quatro épocas de galo ao peito, três foram na Primeira Liga. Numa delas, um jogo no Estádio do Dragão, a 14 de setembro de 2013 [FC Porto venceu por 2-0] até trouxe o Manchester City à baila.

«Na altura, o Gil Vicente tinha uma parceria com o Manchester City. Num jogo no Dragão, tinha alguns olheiros e, no dia seguinte, o presidente [do Gil] ligou-me a dizer que tinham gostado da minha exibição e que estavam interessados. Não teve andamento, não sei porquê, mas foi bom ver que tinha clubes interessados», recorda.

Em quatro épocas nos gilistas, Pecks foi opção regular na defesa. Fez 80 jogos e um total de seis golos. O clube da cidade que o acolheu em Portugal é-lhe, por isso, especial.

«O Gil Vicente é um clube que admiro. Foi uma aprendizagem grande com o Gil Vicente. Foi quem me abriu a porta para Portugal. Foi onde aprendi a ser homem e profissional. Tive oportunidade de jogar na Primeira Liga. Fiz alguns golos decisivos e tive oportunidade de jogar os quartos de final da Taça, onde acabei por fazer um golo [ndr: vitória ante o Nacional, 1-0] e fomos às meias-finais com o FC Porto», lembra.

O futebol e Portugal trouxeram o Gil Vicente a Pecks e também a companheira de vida, a que «batalhou mais nesta história». «Sem ela, não sabia o que era de mim», defende.

Com o ingresso no Pedras Rubras, diz já ter recebido contactos para saberem da sua «situação». Mas, agora, garante profissionalismo e dedicação ao clube de Moreira da Maia: «estou a gostar de estar lá e acho que vou estar até maio a ajudar a equipa».
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