Opinião: Eventos desportivos e desenvolvimento através do desporto

Leonardo Cunha

Por todo o mundo, várias comunidades que têm seus meios de subsistência vinculados a eventos desportivos. O adiamento destes eventos impacta a sua capacidade de trabalhar, participar de atividades comunitárias e sustentar as suas famílias. É importante refletir em que medida os eventos desportivos podem ser uma forma de empoderamento comunitário sem manter uma fórmula de distribuição de riqueza aos mais ricos e negligenciando as comunidades.



O Japão, após vencer a oportunidade de sediar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2020, criou o programa de desporto para o desenvolvimento chamado Sport for tomorrow (desporto para amanhã). Este programa foi construído em torno de três pilares: cooperação internacional e intercâmbio através do desporto, academia internacional de desporto e Integridade no desporto (True Sport).

Após um estudo académico de 20191, foi evidente a intenção de mostrar que este programa está a ter um revés. Em vez de usar o conhecimento e a experiência de voluntários locais, o Japão busca aumentar seu poder diplomático. Esta tem sido uma abordagem criticada por vários atores do campo do desenvolvimento. Alguns críticos acabam até por identificar esta como sendo uma abordagem neocolonialista. Foi também criticada a falta de uma abordagem do programa numa implementação sistemática de baixo-para-cima. Comunidades locais desfavorecidas e minoritárias foram excluídas do programa, deixando a elite japonesa em benefício das estruturas educacionais e desportivas.

Para garantir um legado sustentável para os países anfitriões e suas comunidades locais, as partes interessadas do desporto para o desenvolvimento devem estar envolvidas em incorporar novas políticas no processo de candidatura e organização de eventos desportivos de larga escala.

A criação e o desenvolvimento de um programa de desporto para desenvolvimento e paz deverão, do ponto de vista ético, ser algo obrigatório para os organizadores. Estes consórcios devem sempre considerar o desenvolvimento das comunidades anfitriãs.

A estrutura do Comitê Olímpico Internacional (COI) tem disponível inúmeras políticas para o a criação de legados duradouros para as comunidades locais através do desenvolvimento sustentável do desporto para o desenvolvimento na nação anfitriã. Esta tem sido uma das grandes bandeiras da agenda2020 do COI. O avanço destes eventos com comunidades desfavorecidas serem deixadas de fora, ameaça o seu legado social e cultural positivo. Isto tem sido algo intensamente pesquisado e relatado pela comunidade acadêmica.

Uma política de afirmação internacional e da utilização do desporto como ferramenta de diplomacia numa abordagem de softpower (como alguns estudos evidenciam que foi o caso do Sport for tomorrow do Japão) é necessário ser reconsiderado. Usar o desporto como uma ferramenta para ganhar poder e desenvolver as elites, em vez dos menos favorecidos, deve ser reprovado. A repercussão deste fenómeno, tem sido os referendos públicos a rejeitar sedear os Jogos Olímpicos. Enquanto a população do país (ou cidade) anfitriã não reconhecer os ganhos e avanços sociais, este cenário de declínio irá se verificar perpetuamente.

A adaptação de eventos desportivos futuros, locais, nacionais ou internacionais, será crucial para o desporto no setor de desenvolvimento e, em um sentido mais amplo, verá a riqueza ser distribuída de baixo para cima usando estruturas educacionais e desportivas. O desporto precisa de legitimidade num tempo que a crise que atualmente vivemos pode oferecer novas oportunidades para resolver problemas de longa data.

1 Lengrand, N. (2019) Integrating Sport for development and Peace programmes to lever social legacy within Sport Mega-Events: The Tokyo 2020 Olympic and Paralympic Games “Sport for Tomorrow” programme.

Leonardo Cunha


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